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Review – Hardspace: Shipbreaker (PS5)

Críticas ao corporativismo, desmanche de naves e imersão são os pontos de destaque do jogo

O que faz um jogo especial? Temos muitas variáveis envolvidas, mas um fator é muito importante na equação: o quão o jogador se sente imerso. É algo que pode ser abordado de várias maneiras, e é aí onde os jogos de simulação se destacam. Frequentemente subestimados, os games deste gênero são responsáveis por criar situações fantásticas e altamente satisfatórias. Nesse contexto, Hardspace: Shipbreaker é um triunfo. Trata-se de uma experiência rica, complexa e podemos dizer até necessária quando olhamos para o presente e os desafios que esperam a humanidade no futuro.

A história de Hardspace: Shipbreaker

O jogo em primeira pessoa foi desenvolvido pela Blackbird Interactive (desenvolvedora do futuro Minecraft Legends) e publicado pela Focus Entertainment (saga A Plague Tale). Aqui, você é um desmontador de naves, empregado pela Lynx. Enquanto o trabalho prossegue, Hardspace passa a se aprofundar em questões intimamente ligadas ao trabalho na empresa que contratou o protagonista. Anteriormente disponível para PC, Hardspace chegou à nova geração de consoles em 20 de setembro.

Hardspace: Shipbreaker se passa em um futuro distante, centenas de anos após o século XXI. A exploração espacial foi em muito aperfeiçoada, com o Sistema Solar estando ao pleno alcance dos humanos. Ao mesmo tempo em que este grande progresso ocorreu, a Terra tornou-se um lugar cada vez menos habitável e desanimador até mesmo para viagens turísticas. Mudanças climáticas, fome e doenças tomaram o planeta. É nesse cenário pessimista que o jogador decide trabalhar como desmontador de naves. A tarefa, que a princípio parece fácil, exige cuidado, perseverança e paciência.

A empresa para a qual trabalhamos é a Lynx, uma megacorporação famosa pelas viagens espaciais. O jogador trabalha na Divisão de Recuperação, responsável por reaproveitar partes de naves.

De início, somos apresentados a um contrato duvidoso, o que faz o jogador tornar-se uma propriedade da Lynx e ceder até mesmo a sua sequência de DNA para a corporação. Há outros pontos estranhos, como a concordância de que você vote em determinado candidato para o cargo de Chanceler. Escandaloso, não? Mas, neste futuro, são as condições de trabalho apresentadas. Há outras escolhas curiosas, como a alimentação que o jogador prefere durante sua estadia na Lynx. Na gameplay desta análise foi escolhido frango.

O mais assombroso, porém, é o fato de que a Lynx cobra para que você seja admitido em seus quadros. A empresa, de maneira absurda, exige o pagamento de uma dívida de mais de um bilhão de créditos (a moeda do jogo), que deve ser saldada com os valores conquistados pelo jogador no desmonte das naves. Como resultado, seus ganhos tornam-se nada mais do que abatimentos da dívida até que esta possa ser paga, o que na prática torna o seu fim difícil (mas não impossível — existe até uma conquista dedicada à façanha). Não bastasse isso, os itens que a Lynx fornece para o trabalho não são gratuitos. Isto significa que você deve pagar em créditos à empresa pelo “aluguel” de traje, propulsores e ferramentas.

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O espaço é seu novo lar (captura de tela: Lucien Gilbert)

O espaço designado para ser seu novo lar é pequeno, destinado a suprir as necessidades mais básicas do trabalhador em sua jornada. Temos uma cama e uma cozinha, por exemplo. Outro equipamento disponível é o terminal do funcionário, um aparelho no qual o jogador recebe mensagens da Lynx ou de outros empregados que ajudam a dar profundidade à lore do game, além de seguir com a campanha. Há também uma bancada de equipamentos, destinada à melhoria das ferramentas obtidas e do próprio traje. A personalização fica por conta de adesivos no novo lar e nos equipamentos.

A cada vez que você sai de sua habitação, um turno de trabalho se inicia. Da mesma forma, assim que o retorno ocorre, o turno se encerra. Após o término de cada turno, são realizados os cálculos dos ganhos obtidos pelo trabalhador menos as despesas envolvidas, incluindo os aluguéis dos equipamentos e taxas incidentes. O valor final é abatido ou, se negativo, acrescentado à exorbitante dívida.

A cada vez que o jogador retorna para sua base, a cena seguinte é a de um despertar na própria cama. A Lynx, de forma severa, pontua que não permite mais de oito horas de sono e envia mensagens motivacionais que, no final, servem apenas para alienar o personagem e fazê-lo ter uma visão errônea sobre a empresa. A habitação, portanto, é muito exitosa em reproduzir um ambiente de trabalho exaustivo e estressante. As mensagens da Lynx antes do início de cada turno, por exemplo, são realmente irritantes.

A jogabilidade de Hardspace: Shipbreaker

O game se destaca especificamente em sua jogabilidade, permitindo ao jogador uma grande liberdade de ação que é necessária a fim de que se cumpram os objetivos esperados. Durante sua estadia na habitação, o protagonista pode escolher naves, geradas de forma procedural, e começar a operar.

Em um ambiente de gravidade zero, o jogador deve aprender a se locomover por entre o ambiente da estação de recuperação para desmontar a nave selecionada. A princípio, pode parecer um pouco complicado utilizar os propulsores, mas a adaptação é rápida.

As naves possuem componentes que são destinados a três diferentes destinos. O primeiro deles é a fornalha, onde elementos de menor utilidade são colocados. Em segundo, há o processador, responsável por partes melhores como seções da fuselagem. Por último, há a barcaça, para onde vão os componentes mais importantes como tanques de combustível, terminais de computador, caixas macias, poltronas, antenas e o cobiçado reator, dentre outros.

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Desmontar! (Captura de tela: Lucien Gilbert)

A nave completa é avaliada em um valor específico (normalmente, alguns milhões de créditos). Colocar materiais em destinos incorretos acarreta na perda destes materiais (e prejuízo para o valor final obtido). O trabalho de desmontar uma nave é árduo e requer certa concentração, uma vez que qualquer erro pode ser fatal e extremamente frustrante. Para isso, o jogador conta com algumas ferramentas que o permitem dissecar estes verdadeiros monstros de metal.

Ferramentas

No início, o jogador tem acesso a três ferramentas que auxiliam em sua empreitada: o gancho, o cortador a laser e o escâner.

O escâner é um primeiro equipamento muito essencial, uma vez que ele revela os pontos fracos da nave. A visão é alterada e é possível visualizar também quais elementos são destinados à barcaça, à fornalha ou ao processador.

O cortador dispara um feixe de calor de alta precisão. Todavia, não é possível aplicá-lo em qualquer área da nave: o feixe deve ser direcionado aos pontos de corte, sinalizados pela cor amarela. Quando todos os pontos de corte de determinada seção são soltos, esta se desgarra da estrutura principal. Isto é útil para levar componentes aos lugares devidos e obter melhores formas de acessar o interior das naves.

O trabalho do feixe de laser, entretanto, possui algumas limitações. Primeiramente, o feixe não pode ser emitido de forma contínua, sob risco de sobreaquecer o cortador. Em segundo lugar, disparos imprudentes podem levar a resultados inesperados, uma vez que há materiais e espaços sensíveis nas naves. Um exemplo: um laser disparado contra um cano de combustível causa um incêndio que rapidamente pode convergir para uma explosão. Para piorar, o feixe pode ricochetear em certas superfícies, tornando seu rumo imprevisível.

O gancho é uma ferramenta elegante e amigável, com um grande potencial. Composto por um maleável feixe azul, este equipamento dá ao jogador uma enorme força no ambiente sem gravidade, fazendo-o puxar os componentes da nave, bem como empurrá-los. Logicamente, estruturas mais pesadas precisam ser desmontadas antes. O gancho também precisa ser operado com cuidado, uma vez que seu manuseio negligente pode levar à perda de componentes ou fazê-los acertar o jogador. É um dispositivo fundamental para o trabalhador da Divisão de Recuperação, uma vez que leva as partes da nave para os três destinos possíveis.

Eventualmente, o jogo introduz o uso das amarras, feixes autônomos que permitem ao jogador puxar objetos sem utilizar o gancho. As amarras são especialmente úteis para lançar objetos nas unidades de recuperação e também para mantê-los juntos, algo que pode ser difícil em condições normais por conta do ambiente sem gravidade. As amarras podem ser utilizadas de diversas formas, e os jogadores mais criativos poderão tirar máximo proveito. Outra ferramenta interessante à qual o jogador possui acesso são cargas de demolição. Assim como as amarras, seu uso depende da engenhosidade dos jogadores.

Estes utensílios não são infinitos, com cada um possuindo quantidade e durabilidade limitados. O jogador também possui um HUD relativamente rudimentar, com indicadores de vida, oxigênio e propulsão. É preciso observar tudo isto para que seu personagem esteja em plenas capacidades de realizar seu trabalho. Exemplo: quando o combustível de propulsão se esgota, o jogador fica à deriva.

Para recarregar tanto itens quanto para reparar o traje e obter mais oxigênio e combustível, é necessário ir para um espaço próximo à entrada da habitação denominado quiosque. Para reparar a durabilidade do gancho e do cortador, é necessário recorrer à bancada de trabalho dentro da habitação. Quaisquer destes procedimentos, como é de se imaginar, são descontados da remuneração.

Entretanto, para os que não querem pagar pelos itens do quiosque, é possível obter materiais dentro das próprias naves. Embora a Lynx desencoraje o jogador a realizar tal procedimento, esta é uma forma válida de obter suprimentos sem gastar créditos.

Perigos

O jogo possui diversos perigos que são introduzidos durante a campanha. São elementos que podem ferir o protagonista e, caso não observados, levá-lo à morte.

Em primeiro lugar há o dano por fogo, algo inerente às naves do jogo. É preciso extremo cuidado para não danificar algum cano ou tanque de combustível. Caso ainda assim um acidente deste tipo ocorra, acontece um incêndio — é o aviso para que o jogador se afaste antes de uma possível explosão. De todo modo, parte da nave se perde no processo, o que afeta nos lucros obtidos.

À medida que o jogador avança, novas ameaças são desbloqueadas. Um exemplo são os danos elétricos ou por criogenia. Um tipo muito interessante de perigo que altera a dinâmica do desmonte da nave é o da despressurização. O escâner, nesse tipo de fase, pode identificar quais espaços da nave estão pressurizados e quais não estão. A melhor saída, nestes casos, é ser ainda mais cuidadoso: entrar por uma escotilha e calibrar os níveis de pressurização para permitir que o desmonte continue. Sem a observância disto, ocorre o risco de uma descompressão violenta. Assim, a simples exploração de naves se traduz em verdadeiros quebra-cabeças.

Há também um elemento ímpar: o reator. Esta parte da nave é muito valiosa e destinada à barcaça, mas seu transporte deve ser feito com extrema atenção. Quando o jogador o remove, deve observar que há um tempo pré-determinado para colocá-lo no lugar devido. Caso contrário, ocorre um colapso do objeto, fatal para o personagem.

Importa, também, mencionar as excelentes animações que surgem quando o jogador recebe dano ou morre. Desde fogo na tela até a visão de um capacete quebrado, há diversas formas de ter seu trabalho prejudicado.

E como é feito o retorno à vida no jogo, após cada morte? A solução de Hardspace: Shipbreaker é inteligentíssima e imersiva. Anteriormente foi mencionado aqui que o contrato para trabalhar na Lynx previa a cessão do DNA do personagem do jogador. Isto é utilizado para criar os sobressalentes, cópias do protagonista com suas memórias. Isto, porém, tem um custo: cada cópia sobressalente desconta do pagamento.

Felizmente, na maioria dos modos de jogo, a morte não anula o progresso feito até então, permitindo que se explore a nave escolhida do ponto em que o corpo anterior parou.

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Novas naves são introduzidas à medida que o jogo avança (Captura de tela: Lucien Gilbert)

Embora cada nave seja um desafio novo, o uso constante das mesmas ferramentas e a necessidade do processo ser realizado de modo cuidadoso pode tornar a atividade enfadonha para os jogadores. Para outros, no entanto, o desmonte pode ser um prato cheio para o uso de estratégias e a superação dos próprios limites alcançados em recuperações anteriores.

Sistema de progressão

O jogador progride por meio de dois sistemas: as Fichas Lynx e as Certificações.

A atividade de desmontar uma nave e recuperar seus componentes pode ter variadas recompensas. Existem metas a serem batidas de acordo com o valor recuperado. A cada marco alcançado, Fichas Lynx e pontos de Certificação são entregues ao jogador. Caso parte da nave seja destruída no desmonte, a depender do valor desperdiçado, uma ou mais (ou todas) as metas estabelecidas para o jogador podem ser perdidas.

As Fichas Lynx são utilizadas para melhorar as ferramentas e o traje do jogador. Estes possuem árvores de habilidade próprias, as quais melhoram alcance, durabilidade e outros atributos. Podem ser melhorados o cortador, o gancho, os propulsores, o escâner, o capacete, o traje e as cargas demo.

As Certificações são uma série de graus pelos quais o jogador passa até atingir o auge como empregado. Os principais marcos são: Treino Básico, Novato, Selo Vermelho, Avançado, Especialista Sênior, Mestre Recuperador e, por fim, Grão-Mestre Recuperador. Ao todo, são 60 Certificações. Subir no ranking das Certificações faz o jogador avançar na campanha e também obter novas naves para desmontar.

Embora tudo seja muito intuitivo e explicado, a campanha acaba se alongando, o que pode tornar alguns momentos maçantes para o jogador em sua busca pelo grau de Grão-Mestre Recuperador.

Os modos de jogo de Hardspace: Shipbreaker

O jogo possui quatro dificuldades no modo “Carreira”, cada uma delas atendendo a um tipo de jogador. A mais fácil, “Horas Vagas”, prevê um número ilimitado de cópias sobressalentes, além de oxigênio à vontade. Os turnos, aqui, não são cronometrados. Já na dificuldade “Padrão”, as vidas permanecem ilimitadas, mas os turnos possuem tempo pré-estabelecido. Em “Limitada”, o jogador possui trinta vidas durante toda a campanha. Em “Sem revitalização”, como o nome indica, não há cópias sobressalentes à disposição. A morte do jogador, nesse caso, faz com que o reinício da campanha seja necessário.

Para além do modo Carreira existe o modo Livre e também o V.R.U.M de Cortador, que nada mais é do que uma competição online entre os jogadores que desmontam naves.

Narrativa

Hardspace: Shipbreaker conta com uma narrativa polvilhada de humor ácido. Este humor funciona muito bem no enredo, com absurdos ocorrendo rotineiramente e causando indignação no jogador. Exemplo são as condições que a Lynx oferece para os trabalhadores: por exemplo, em uma mensagem enviada, é mencionado que seus empregados possuem desconto em determinada compra de incríveis 1.7%. Não bastasse isso, a promoção só é válida às terças-feiras! A Lynx também possui as mais bizarras cláusulas contratuais, como a de não proteger empregados caso eles sejam atacados por algum fantasma nas naves. É tão revoltante que torna-se hilário, com falas que parecem ter saído diretamente de séries como The Office.

A boa escrita no roteiro nos leva a uma lore abrangente que abarca as mais variadas faces do jogo. Exemplo: existem trabalhadores que morreram na fornalha e foram substituídos por cópias sobressalentes, mas a memória do fim é tão forte que eles desenvolveram uma relação distorcida com o elemento e passaram a cultuar uma divindade que criaram conhecida como “Deus Fornalha”.

 Você não está só em um simulador de cortar naves (por mais que este ocupe a maior parte da jogatina), está em um simulador de um ambiente de trabalho futuro onde as relações de emprego se deterioraram cada vez mais. Não só isso: o personagem do jogador abre mão de tudo para trabalhar na Lynx. Seu código genético e sua propriedade intelectual passam a pertencer à empresa. Assustador.

A campanha utiliza de mensagens no terminal do funcionário e também das vozes de personagens secundários acompanhadas por caixas de texto. É assim que conhecemos nossos companheiros na estação: Weaver, Lou, DeeDee e Kaito. Cada um deles possui uma personalidade diferente, o que contribui para a imersão. Lou, por exemplo, é sonhadora e tem uma visão contrária à Lynx. Weaver, por outro lado, é o líder da equipe e busca ser altruísta, embora faça colocações descabidas por vezes.

Hardspace
Captura de tela: Lucien Gilbert

Como mencionado anteriormente, desmontar naves permite avançar nas Certificações e na campanha, consequentemente. O jogo, no avançar da história, mostra os trabalhadores insatisfeitos com as recentes posturas da Lynx. Para poder resistir à exploração, eles decidem se sindicalizar. No universo do jogo os sindicatos estão extintos há eras, mas há uma fagulha de esperança com empregados em péssimas condições e uma empresa extremamente gananciosa.

O sindicato busca a melhoria das relações de emprego com a Lynx e, para isso, possui algumas bandeiras principais: cancelamento da dívida, segurança nas atividades e investigação de cláusulas abusivas no contrato de trabalho. A Lynx não reage bem e busca descreditar o sindicato: é alegado que sua existência não é admitida e que ele é, na realidade, adversário dos trabalhadores. Na concepção da Lynx, a empresa é a “família” do jogador.

O desempenho de Hardspace: Shipbreaker

O jogo flui a 30 frames por segundo no PlayStation 5. É possível, porém, desbloquear a taxa de quadros. Deixar o jogo a 30 fps, porém, mantém um desempenho mais estável.

De modo geral, Hardspace roda de forma satisfatória, não apresentando crashes. Os únicos bugs presenciados na gameplay desta análise foram de colisão de uma ferramenta em uso com certas estruturas da nave, o que é aceitável tendo em vista a quantidade de elementos existentes.

Os gráficos são competentes e permitem que a experiência fique mais imersiva, com texturas muito bonitas. Há a possibilidade de dissecar a nave em muitos pedaços menores, o que não se prova um problema para o hardware de nova geração. Além disso, efeitos como explosões também ocorrem sem deixar a desejar. Outro ponto positivo é o tamanho discreto do jogo: apenas 4 GB no PlayStation 5.

Hardspace: Shipbreaker vale muito a pena!

Embora o embate contra uma megacorporação seja um tema recorrente nos videogames, Hardspace: Shipbreaker é um dos jogos que mais é objetivo e transparente em apresentar questões pertinentes aos trabalhadores.

É louvável e corajoso o esforço dos desenvolvedores em colocarem uma visão crítica às condições de trabalho de muitas pessoas na atualidade. Muito longe de ser apenas um simulador de cortar naves, Hardspace oferece uma experiência de lidar com uma empresa que explora ao extremo seus funcionários. O inimigo, no espaço, não é um monstro lovecraftiano: é o próprio homem, que na sanha de explorar o seu semelhante tornou-se irreconhecível. A reação necessária das pessoas, na visão do jogo, não é a passividade, e sim a união contra os seus exploradores. Com a assertividade com que a Blackbird tratou o tema das relações abusivas de emprego, é presumível que isso deve acarretar em algumas críticas negativas. Mas, ao invés de sacrificar a narrativa e o teor crítico do jogo, os desenvolvedores mantiveram estes elementos.

Sem dúvida, as situações descritas no jogo possuem paralelo no mundo real. Por isso, pode se definir o jogo como uma grande sátira, a todo momento trazendo absurdos que podem até ser engraçados na gameplay, mas que possuem uma assustadora semelhança com a realidade. Mas, muito mais do que apresentar problemas que já perpassam a sociedade atual, temos questões futuras sendo visadas. O dilema do uso dos sobressalentes e da reivindicação destes como propriedade da Lynx, por exemplo, encabeçam um tema que, no mundo real, está amadurecendo: a bioética e a possibilidade do nosso código genético ser cedido a empresas ou governos. Sem nos aprofundarmos, há teorias no campo do Direito que classificam a bioética como um direito fundamental. Dessa forma, a proteção de dados genéticos, impedindo que eles sejam colhidos e usados de forma indiscriminada e abusiva, é importante para que futuros sombrios como o da Lynx sejam evitados.

Com uma jogabilidade refinada e uma narrativa afiada, Hardspace: Shipbreaker nos traz a elegância de um simulador somado a uma crítica muito pertinente. Indo muito além do que se pode imaginar em um primeiro momento, o jogo carrega uma forte mensagem. Tudo isso enquanto o jogador está em sua jornada para fazer um bom turno. Estamos diante de uma obra que pode não ser perfeita, mas que sem dúvidas é de muita qualidade e que funciona tanto como uma provocação quanto também como um alerta.

Por fim, é importante realizar uma reflexão, dentre outras tantas que Hardspace se propõe. Não é apenas uma crítica à precarização do trabalho na sociedade moderna, mas um convite a pensar sobre o futuro envolvendo as viagens espaciais, por vezes alardeado como fantástico e maravilhoso. É de se imaginar, sobretudo, que antes de dominar por completo a exploração do cosmos, o ser humano deve, antes, atravessar outras fronteiras e olhar para dentro de si próprio.

8.4Pontuação do especialista
Ótimo

Hardspace: Shipbreaker traz críticas interessantes ao mesmo tempo que apresenta uma jogabilidade imersiva

História
9
Jogabilidade
8
Desempenho
8
Visuais
9
Trilha Sonora
8
Pontos Positivos
  • Ótima história e lore
  • Liberdade na jogabilidade
  • Dublagem e trilha sonora
Pontos Negativos
  • Desmanche de naves se torna repetitivo

PS: A análise foi realizada em um PlayStation 5 através de uma cópia cedida pela Blackbird Interactive e Focus Entertainment.

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